Após meses sem publicar, influenciador fala sobre fobia social e é cobrado por não dizer em quem vai votar

Silêncio de Felca também é uma resposta, e frustração diz mais sobre o público do que sobre ele
Silêncio de Felca também é uma resposta, e frustração diz mais sobre o público do que sobre ele · Imagem: Source: noticias.r7.com

Espaço Prisma|Luciano Claudino, especial para o R7*

Silêncio de Felca também é uma resposta, e frustração diz mais sobre o público do que sobre ele
Silêncio de Felca também é uma resposta, e frustração diz mais sobre o público do que sobre ele · Imagem: Source: noticias.r7.com

23/10/2026 - 02h00 (Atualizado em 23/10/2026 - 02h00)

Silêncio de Felca também é uma resposta, e frustração diz mais sobre o público do que sobre ele
Silêncio de Felca também é uma resposta, e frustração diz mais sobre o público do que sobre ele · Imagem: Source: noticias.r7.com

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Silêncio de Felca também é uma resposta, e frustração diz mais sobre o público do que sobre ele · Imagem: Source: noticias.r7.com

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Felca volta a se manifestar nas redes sociais, após ser cobrado Reprodução/YouTube/@felcaseita
Felca volta a se manifestar nas redes sociais, após ser cobrado Reprodução/YouTube/@felcaseita · Imagem: Felca volta a se manifestar nas redes sociais, após ser cobrado Reprodução/YouTube/@felcaseita

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Silêncio de Felca também é uma resposta, e frustração diz mais sobre o público do que sobre ele
Silêncio de Felca também é uma resposta, e frustração diz mais sobre o público do que sobre ele · Imagem: Source: noticias.r7.com

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Felca volta a se manifestar nas redes sociais, após ser cobrado Reprodução/YouTube/@felcaseita

Na madrugada de terça-feira, Dia Mundial de Combate ao Bullying, Felca publicou seu primeiro vídeo depois de meses longe do canal. Foi cerca de uma hora de relato sobre agressões que começaram aos 12 anos, sobre o diagnóstico de fobia social e sobre o plano de levar o tema às escolas. Ele mesmo chamou de “o vídeo mais sincero e mais difícil” que já fez.

Uma parte do público assistiu a outra coisa: à ausência. Às vésperas do segundo turno, esperava-se que o influenciador dissesse em quem vai votar. Como não disse, o relato virou “decepção”, o momento escolhido virou crítica, e um homem falando das próprias cicatrizes passou a ser cobrado pelo que não falou.

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O episódio é pequeno diante de uma eleição presidencial, mas funciona como um retrato preciso do nosso tempo. Vale perguntar menos sobre ele e mais sobre nós.

Por que cobramos?

Em “Falo, logo existo!”, defendo que vivemos sob uma regra não escrita: falar virou prova de existência. Quem não fala parece que sumiu, que não pertence, que falhou moralmente. Por isso, o silêncio de uma figura pública é lido como resposta, e quase sempre como a pior possível: covardia, cálculo, cumplicidade.

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Há também uma razão menos nobre. Quando cobramos o posicionamento de alguém famoso, raramente queremos saber o que ele pensa. Queremos saber de que lado ele está. A declaração de voto funciona como carteirinha: ou reforça o meu time, ou me entrega um alvo. Em nenhum dos dois casos há conversa. Há triagem.

E aí cabe a pergunta que deveria vir antes de qualquer cobrança: tudo precisa ser dito? Tudo precisa ser provado? O voto é secreto por um motivo. Guardá-lo não é covardia; é um direito que custou caro ao país. Uma pessoa pode ter opinião política e escolher não transformá-la em conteúdo. Pode, simplesmente, ter outra coisa urgente para dizer.

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O ringue no bolso

Essa cobrança não nasceu do nada. As redes transformaram a conversa pública num ringue aberto o tempo todo, cuja regra mora no placar: curtidas, comentários, compartilhamentos. Nesse ambiente, sobrevive o que cabe sem contexto. A frase que aponta culpado, a que divide o mundo em dois, a que oferece posição moral imediata. Uma hora sobre bullying não cabe em nenhum desses moldes. Um “voto em fulano” cabe em todos.

O ringue também educa. Ensina a odiar o silêncio, a confundir velocidade com clareza, a tratar prudência como suspeita. E ensina que o assunto importa menos do que a pessoa. Repare no que aconteceu: em poucas horas, o tema do vídeo, meninos agredidos na escola e adultos que carregam isso por anos, saiu de cena. Ficaram o personagem e a pergunta sobre ele. Esse é o sinal mais limpo de que uma conversa virou briga: quando deixa de ser sobre a ideia e passa a ser sobre quem a disse.

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Vencer em vez de entender

Por trás disso há uma troca que fizemos sem perceber. Em algum momento, o objetivo de conversar deixou de ser entender e passou a ser vencer. Quando a vitória vira objetivo, o outro só tem dois papéis possíveis: aliado ou adversário. Quem não se encaixa vira suspeito. A nuance vira “ficar em cima do muro”. O silêncio vira “omissão”.

A ironia é que todos saem perdendo. Quem cobrou não ganhou um voto, quem foi cobrado não ganhou compreensão, e um assunto que poderia ajudar milhares de adolescentes ficou soterrado pela pergunta errada. Não é preciso gente má para chegar a esse resultado. Basta gente cansada, ansiosa e convencida de que, se não reagir rápido, desaparece.

De volta à mesa

No livro, contraponho o ringue à mesa. No ringue, alguém precisa sair derrotado. Na mesa, ninguém precisa vencer: a conversa existe para que todos saiam sabendo um pouco mais do que quando entraram.

Voltar à mesa não exige heroísmo. Começa com gestos pequenos. Trocar a cobrança pela pergunta: em vez de “por que ele não se posicionou?”, perguntar “o que ele quis dizer?”. Separar a pessoa da ideia antes de reagir. Desconfiar da urgência, porque quase nada que parece exigir resposta imediata precisa dela. E aceitar que o silêncio de alguém nem sempre é sobre nós. Às vezes é escolha, às vezes é cuidado, às vezes é só outro assunto.

Vale, ainda, um exercício mais desconfortável. Antes de exigir a declaração do outro, perguntar o que eu faria com ela. Se a resposta honesta for “decidir se gosto ou não dessa pessoa”, talvez o problema não esteja no silêncio dela.

Faltam poucos dias para a votação. O país vai continuar dividido no dia seguinte e vai continuar precisando conversar. Felca, à sua maneira, falou de algo que atravessa os dois lados da urna: o que acontece com quem é tratado como alvo. A melhor resposta que podemos dar não é exigir que ele escolha um time. É ouvir o que ele disse.

*Luciano Claudino é autor de “Falo, logo existo!” (LC Books Editora, 2026), estrategista político e consultor de investimentos.

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