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Foto: Divulgação

Entrevista comJosé Renato Quaresmacandidato à presidência do Santos

Ex-diretor da base do Santos, José Renato Quaresma passou a ser crítico de Marcelo Teixeira desde que rompeu com o dirigente e deixou o cargo, em março deste ano. Ele decidiu se lançar candidato à presidência do clube, com críticas ao atual presidente, sobretudo relacionadas às finanças da agremiação.

“O dinheiro do pai do Neymar entrou, mas não o pagaram. A dificuldade é entender o que fizeram com o dinheiro, pois gastaram com jogadores de salários altíssimos, negociações caríssimas e produtividade baixíssima”, afirma o empresário de 60 anos ao Estadão.

Quaresma acredita que o projeto da WTorre para a construção de um novo estádio no lugar da Vila Belmiro, atualmente suspenso, é inviável. “Não dá para colocar 30 mil pessoas em um espaço de 19 mil metros quadrados como a Vila Belmiro. É querer inventar. Esse projeto foi esticado e está sendo utilizado politicamente”.

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Quaresma fala em fazer 'ressonância magnética' para entender problemas do Santos

Ex-diretor da base santista é um dos candidatos à presidência do clube. Crédito: Estadão

Ele defende que a Vila Belmiro se torne um polo turístico e argumenta que é possível encontrar parceiros para construir um novo estádio em outro local. Enquanto isso, sua ideia, caso seja eleito, é que o Santos mande mais jogos no interior de São Paulo.

Por que ser candidato à presidência do Santos?

Fiz parte da gestão do Marcelo como diretor de base. Entendo que a gestão hoje feita para o clube é uma gestão que não aceito, tanto financeiramente como esportivamente. A minha projeção dentro do clube hoje me traz a certeza de que sou o melhor candidato pelo conhecimento que temos do clube, do futebol e de toda a estrutura de gestão, até porque tenho uma empresa que comecei há 28 anos fazendo toda a gestão dela. Entendo de gestão financeira, de pessoas e de processos, e entendo que o Santos precisa disso: mudar o tipo de gestão e ter mais capacidade de produção. Me preparei fazendo o programa internacional executivo da CBF Master, no qual passamos dois anos viajando pelo mundo e conhecendo processos do futebol e da indústria do entretenimento. Visitamos Real Madrid, Atlético de Madrid, Sporting, Benfica, dois times de futebol americano nos Estados Unidos, além de Palmeiras, Corinthians, Flamengo, Botafogo e Fluminense. Isso dá uma visão de como o futebol é desenvolvido nesses lugares e como funcionam os sistemas de SAF na Europa, onde o assunto já é maturado. Por tudo isso e por ver os maus-tratos que o Santos teve nas últimas gestões, coloquei meu nome após 16 anos de conselho e de ter passado por vários cargos sem remuneração. Vejo que o Santos tem condições de mudar a história que está construindo.

José Renato Quaresma, candidato à presidência do Santos Foto: Divulgação
Como mudar, então, essa história? Como reerguer o clube após anos de calvário para o torcedor?
Nos últimos três anos, o Santos teve uma arrecadação muito maior, mas os gastos também aumentaram, sem freio. Não teve uma estrutura no clube preparada para reduzir dívida, melhorar processos ou a estrutura física, como o CT. E gastou com o quê? Se hoje tem uma dívida com o pai do Neymar de R$ 80 milhões dividida em 80 meses de R$ 1 milhão, pagou o quê? Se tem uma dívida com o Zé Rafael dividida em 48 meses de R$ 400 mil por mês, pagou o quê? E a parte fiscal? O Santos está sem CND (certidão negativa de débito).
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Se você for eleito, vai herdar esse cenário.
Vou herdar, e nós vamos consertar e resolver a engenharia financeira. Uma coisa chama-se clube, que se administra como empresa, e a outra é o futebol, que é gestão de pessoas. O futebol é administrado entre base, futebol profissional e feminino, enquanto o clube faz o alicerce para sustentar o time e as categorias onde há produção. E a produção ocorre na base, que gera o atleta para o profissional ou para venda como ativo para autossustentar o processo final. Não teve coerência nos gastos nem estrutura para segurar o aumento da capacidade financeira que houve com a chegada do Neymar. E pior: o dinheiro entrou do pai do Neymar, mas não o pagaram. A dificuldade é entender o que fizeram com o dinheiro, pois gastaram com jogadores de salários altíssimos, negociações caríssimas e produtividade baixíssima. O Zé Rafael chegou com problema nas costas, assinaram um contrato desse tamanho com multa alta. O Tiquinho saindo do Santos, o Mayke, são mais casos. Tinha o (JP) Chermont e contrataram o Mayke. Isso corrobora uma dificuldade de administração com a qual não concordo. Na base, preparei atletas com condições de assumir vagas no profissional, mas continuaram contratando.
Na sua gestão você enxugaria gastos, principalmente em contratações?
Não é deixar de contratar, é contratar pontualmente e bem. Na última janela, as contratações foram muito boas, mas por que não fizeram isso anteriormente, quando pegaram uma prateleira mais baixa? Foram muitos atletas. Contrataram dois zagueiros, sendo que tínhamos dois ou três na base com condições de ir substituindo. A molecada oscila. É desenvolver, e você precisa fazer isso. É muito mais barato do que pagar R$ 4 milhões.
O Santos tem bons valores nas categorias de base, mas não é mais a referência. Por quê?
Porque não aceitam mais o jogador da base subindo, só aceitam na hora em que aperta. O Santos tem o DNA revelador, mas você bloqueia a subida ao inchar o elenco com tantas contratações. E um jogador que ganha muito não quer perder a posição pra quem está subindo e ganha menos. Um jogador que ganha R$ 1 milhão não quer perder a vaga para quem ganha 100 mil. Existe a política interna dos atletas, com o treinador e com o executivo, gerando conflitos de grupo que exigem tomadas de decisão. O presidente, o executivo, o gerente e o treinador precisam tomar decisões.
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Você já tem nomes de executivo e treinador que contrataria?
Tenho vários nomes em avaliação com uma equipe fazendo o scout. Quero a avaliação do scout não só de resultados, mas de como o treinador trata as pessoas e se é parceiro, para acertarmos ou errarmos menos. A base continua sendo nosso principal trabalho, sem esquecer o futebol feminino, que precisa ser recuperado e passará a ter duas categorias de base exigidas pela CBF. Redução financeira em empresa se faz para reinvestir e buscar melhoria de processos, como em RH. No futebol é a mesma coisa. Só de retirar pessoas que não produzem diretamente para o clube já haverá uma grande redução. É possível fazer essa reengenharia financeira. São muitas empresas no Brasil hoje com dívidas. Uma coisa é dividir as dívidas, outra é retomar o giro de caixa. Dívidas passadas podem ser estancadas e renegociadas, até via recuperação judicial em último caso, como outros clubes fizeram, mantendo o giro de caixa para a operação presente, concentrando investimentos no futebol profissional e na base. Nosso maior investimento será no futebol, no profissional e muito na base.
Qual o seu pensamento sobre a SAF?
Sou a favor da SAF, mas não de sucatear o Santos para vender por um perfil e valor inadequados. Se um investidor quiser comprar, terá que aumentar o valor e definir percentuais claros para renegociação de dívida, time profissional, renovação da Vila, base e CT. A SAF deve vir para ajudar, não como um produto de mando, desapegando dos torcedores e entregando o clube a um único dono para fazer o que quiser. O Santos é o clube mais conhecido no mercado internacional. É preciso cuidado com o modelo da SAF e estudar outras parcerias para alavancar o Santos.
Você tem conversado com parceiros e investidores?
Sim. Primeiro precisamos fazer uma ‘ressonância magnética’ no Santos para entender tudo que precisa. Os parceiros querem investir. O clube, com a arrecadação que teve, conseguiria ser equilibrado se não inflasse a folha de pagamento com jogadores sem produtividade. Na minha gestão na base, subimos 19 jogadores para o profissional e colocamos atletas na seleção brasileira. O Jair se recuperou no sub-20, virou titular no profissional, foi vendido e hoje está na seleção. Nossa equipe está preparada para fazer essa reestruturação. Precisamos trabalhar forte no futuro CT de São Vicente, em terreno conseguido por mim junto ao prefeito Kayo Amado. Um CT com três a cinco campos ajudará muito no processo, pois hoje temos apenas três campos para atender todas as 11 categorias da base e do feminino.
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Sobre o terreno do CT em São Vicente, o Ministério Público de São Paulo enviou recentemente uma notificação ao Santos referente a uma denúncia de danos ambientais.
Se houver pendências ambientais não resolvidas, buscaremos outras opções de campos pra por a garotada pra jogar, dando prioridade para as categorias sub-15, 17 e 20 para fazer crescer e chegar ao profissional.
O que você pensa sobre o estádio do Santos e o projeto com a WTorre?
Participei da primeira reunião com a WTorre na gestão, fiz quatro perguntas que não foram respondidas e não fui mais convidado. O projeto era inviável: não dá para colocar 30 mil pessoas em um espaço de 19 mil metros quadrados como a Vila Belmiro. É querer inventar. Esse projeto foi esticado e está sendo utilizado politicamente. A Vila Belmiro precisa ser um patrimônio histórico do futebol mundial, polo turístico pulsando 24 horas com bares e restaurantes para se pagar, sendo usada para jogos da base e do feminino. Vou fazer um requerimento para isso. Para o profissional, sou a favor de uma parceria para um novo estádio com parceiros investidores. Chegaram propostas, mas todas foram rejeitadas. O Santos precisa aumentar sua arrecadação com o estádio. Além disso, vou brigar para que o Santos volte a ter no mínimo 30% a 40% de torcida nos clássicos em São Paulo, pois o clube foi o mais prejudicado com a torcida única. É uma perda para o clube, efetiva. Precisa ser revisto. Os problemas maiores foram entre os três da capital e o Santos pagou o pato. Temos que voltar a brigar pela possibilidade desse espaço nos jogos contra os rivais.
Então, na sua visão, o ideal seria construir um novo estádio para o clube e tornar a vila um lugar simbólico, sem jogos?
Jogariam todos os jogos na Vila o feminino e a base. O profissional jogaria também, mas quando o novo estádio estiver com shows, eventos.
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Candidato José Renato Quaresma diz que renovaria o contrato de Neymar Foto: Felipe Rau/Estadão
E o Pacaembu? Pensa em negociar com a concessionária para que o Santos mande alguns de seus jogos lá?
O Pacaembu hoje se tornou inviável para todos os clubes de São Paulo devido aos custos altos e à redução de capacidade para 19 mil pessoas. Os custos são altos hoje. Tem que ser estudada a viabilidade do Pacaembu se os custos baixarem. O projeto tem que ser viável.
Sou favorável a mandar jogos no interior, como Campinas e Ribeirão Preto. O Santos tem torcida para jogar no interior e na capital.
O ideal é viabilizar um novo estádio com parceiros ou jogar em arenas na grande São Paulo ou entrada da cidade. Nós precisamos criar um modal de transporte onde você tenha facilidade para a torcida do Santos sem chegar e sair, porque o cara que vem de São Paulo vai perder menos tempo. O projeto anterior da WTorre dava apenas 3% ao Santos, é um contrato absurdo. Não vai prosperar esse projeto.
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O contrato do Neymar termina em dezembro. Você renovaria?
Sim, conversaria para renovar. O Neymar é um ícone do futebol e do Santos, e deve ser tratado como um produto que traz retorno financeiro e estrutural. O pai dele ajudou no CT e pagou transfer ban recebendo adiantamentos em propriedades.
Isso é adiantamento de recurso e você não pode fazer. Mas fizeram. A culpa não é do pai do Neymar, é da diretoria que assina a contratação do Billal (Brahimi), do Alexandre Matos. A diretoria tem culpa por uma gestão horrível.
A culpa dessas operações não é de quem oferece, mas da diretoria que assina. Continuaria fazendo parcerias com ele e com quem quiser ajudar o Santos.
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Você renegociaria o contrato do Santos com a Libra referente ao dinheiro dos direitos de TV?
Tudo terá que ser renegociado e analisado para buscar aumentar os recursos do Santos de todos os lados. O marketing precisa trabalhar mais com e-commerce e novos patrocinadores além da camisa. O faturamento do clube precisa ser incrementado em todas as áreas. O Santos não tem muita arrecadação nos jogos na Vila. O que sustenta o clube é vender jogador? É marketing? Direitos de TV? Vamos avaliar cada item e aumentar o potencial.
Por que você deveria ser o presidente do Santos?
Porque sou o mais capacitado entre os candidatos. Discuto Santos com qualquer pessoa. Sou formado em Administração, tenho pós-graduação pela Universidade de Madrid e o curso CBF Master. Tenho 28 anos de experiência gerindo minha empresa, que hoje tem 2.100 funcionários na Baixada Santista, além de ter sido comodoro em clube náutico. Tenho disponibilidade total, trânsito no meio do futebol e credibilidade para mudar a situação do Santos Futebol Clube.
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