Manoela Alcântara

Imagem da matéria: Ligada à Betnacional, empresa sem funcionários moveu R$ 4 bilhões em câmbio
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Investigação aponta que 88% do valor passou por 28 operações simultâneas com empresas do grupo, incluindo uma offshore em Curaçao

Receita Federal e MPF realizam coletiva da Operação Jogo de Sombras
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Pablo Giovanni

Ligada à Betnacional, empresa sem funcionários moveu R$ 4 bilhões em câmbio
Ligada à Betnacional, empresa sem funcionários moveu R$ 4 bilhões em câmbio · Imagem: Source: www.metropoles.com

23/09/2026 03:30

Ligada à Betnacional, empresa sem funcionários moveu R$ 4 bilhões em câmbio

O Ministério Público Federal (MPF) e a Receita Federal apontam uma empresa que mantinha apenas uma caixa postal em um coworking na Avenida Faria Lima, em São Paulo, como uma das peças centrais da engrenagem financeira do Grupo NSX, dono da Betnacional.

O conglomerado, responsável também por casas de apostas como Mr. JackBet e PagBet, é investigado por suspeitas de evasão de divisas, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. O grupo foi alvo de operação deflagrada no fim do mês passado.

A investigação começou a partir de levantamentos da Receita sobre a movimentação financeira das empresas responsáveis pelas plataformas. Posteriormente, o MPF obteve autorização judicial para quebrar os sigilos fiscal e bancário dos investigados.

Dados dos contratos de câmbio foram entregues por uma corretora e analisados pela Receita. Os documentos colocaram a LCT Pagamentos e Serviços no centro das remessas internacionais realizadas pelo grupo da Betnacional.

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Segundo os investigadores, a empresa recebia e movimentava parte dos recursos depositados por apostadores brasileiros nas plataformas. Em seguida, realizava operações de câmbio eletrônico e enviava os valores para empresas do próprio conglomerado no exterior.

Entre dezembro de 2022 e janeiro de 2025, a LCT movimentou € 682,7 milhões em contratos de câmbio. Pela cotação mais recente, o montante supera R$ 4 bilhões.

Desse total, € 601,1 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 3,5 bilhões, passaram por 28 operações de câmbio simultâneo. O valor corresponde a 88,04% de toda a atividade cambial da empresa no período analisado.

Em cada uma delas, foram fechados dois contratos vinculados: um de compra e outro de venda de moeda estrangeira, na mesma data e pelo mesmo valor. As transações utilizaram o código cambial destinado a jogos e apostas e tiveram como destinatárias empresas do próprio Grupo NSX no exterior, entre elas a NSX Enterprise N.V., sediada em Curaçao.

O câmbio simultâneo é uma modalidade permitida. A Receita, porém, afirma não ter identificado documentos ou uma justificativa econômica que explicassem as operações realizadas pela LCT.

Para os investigadores, a combinação entre os contratos espelhados, a ausência de contrapartida comercial e o vínculo entre remetente e destinatárias indica que o mecanismo pode ter sido usado para dar aparência regular à transferência ao exterior do dinheiro arrecadado com apostas no Brasil.

A suspeita é que os recursos fossem enviados às empresas estrangeiras do grupo e depois retornassem ao país como supostos pagamentos por serviços, permitindo que receitas obtidas no Brasil aparecessem como capital proveniente do exterior.

A Receita sustenta ainda que a LCT atuava como uma instituição de pagamento sem possuir autorização do Banco Central. A empresa também não tinha um único funcionário registrado, apesar da movimentação bilionária identificada nos contratos de câmbio.

Formalmente, a LCT declarava exercer atividades de intermediação de negócios e serviços. Os investigadores atribuem Luiz de Andrade Lima Neto e Leonardo Cisneiros Trigueiro como sócios da empresa e registra que Paulo Roberto de Carvalho Barbosa detinha participação de 10%.

Luiz Neto, que também ocupava o cargo de diretor-executivo de Integridade e Compliance da NSX Brasil, teria assumido o controle da LCT em dezembro de 2022 — justamente no início do período em que se concentram as operações de câmbio analisadas.

Trigueiro, por sua vez, é apontado como um dos coproprietários das marcas de apostas. O MPF afirma que ele direcionava fluxos financeiros por meio da LCT e recebeu R$ 15,85 milhões em lucros acumulados, cuja origem também é investigada.

A coluna procurou a NSX Brasil, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição. O Metrópoles não conseguiu localizar a defesa dos demais citados. O espaço permanece aberto para manifestação.

Receita Federal/Divulgação

Receita Federal e MPF realizam coletiva da Operação Jogo de Sombras

Caixa postal na Faria Lima

A LCT informava como endereço a Avenida Brigadeiro Faria Lima, nº 1.461, no Jardim Paulistano, uma das regiões comerciais mais valorizadas de São Paulo.

Durante a operação, integrantes do MPF foram ao local e constataram que o conjunto era ocupado por uma empresa de coworking.

A LCT não mantinha escritório, empregados, computadores ou qualquer atividade operacional no endereço. A relação com o coworking se limitava à caixa postal e a uma pasta destinada ao armazenamento de correspondências.

O relatório da diligência classificou como “eminentemente virtual” a relação comercial entre a LCT e o estabelecimento. Também registrou que a empresa não possuía bens no local nem utilizava vaga de garagem.

Durante a busca, foram recolhidos envelopes destinados à LCT, uma cópia do contrato firmado com o coworking, trocas de e-mails e a pasta física mantida pela administração do estabelecimento.

Os documentos são analisados pelo MPF em Pernambuco, com apoio técnico da Receita Federal. As suspeitas ainda estão em fase de investigação.