Amanhece uma manhã úmida e fria do inverno austral em um bairro popular do nordeste de Montevidéu, uma área onde predominam casas pequenas de bloco ou de tijolo sem reboco. É sexta-feira e, na maioria das residências, as crianças se preparam para ir à escola e os adultos para sair para trabalhar. Diante de uma delas, param duas motos, quatro pessoas com capacetes. Dois pulam o muro de entrada e mentem: “Polícia!” para que abram a porta. Depois abrem fogo: fuzilam cinco pessoas. Estas foram 5 das quase 200 vítimas de homicídios no Uruguai no primeiro semestre do ano.Segundo as primeiras versões da polícia, tratou-se de mais uma vingança em uma longa disputa entre dois clãs familiares envolvidos com o narcotráfico há pelo menos cinco anos. Na capital uruguaia e seus arredores, a taxa de homicídios durante os últimos 5 anos oscila entre 16 e 18 a cada 100 mil habitantes e, em todo o país, ronda os 10 a cada 100 mil. Um crime que vem crescendo estatisticamente no último meio século e que representa a principal preocupação para os uruguaios, segundo pesquisas.A angústia da população deriva em debates políticos, pedidos de renúncia por parte da oposição e exigências de linha dura, de soluções drásticas. Uma situação que não é muito diferente da que vive a maior parte dos países da América Latina. “Mais policiais, mais prisões e mais penas. A fórmula do fracasso foi essa historicamente. E isso somente agravou os problemas”, diz o criminologista Emiliano Rojido, mestre e doutor em Políticas Públicas e assessor em políticas de segurança pública do Ministério do Interior do Uruguai.O Uruguai elaborou um projeto de dez anos chamado Plano Nacional de Segurança, para tentar solucionar o problema da insegurança a partir de “três dimensões”. “Em primeiro lugar, queremos que a segurança pública seja uma política de Estado que transcenda os mandatos governamentais, porque muitas das soluções não virão no curto prazo”, explica Rojido. Ou seja, “tentar separar a segurança pública do espólio eleitoral”.Em segundo lugar, este trabalho, que já conta com quase um ano de desenvolvimento, tenta enxergar a segurança pública como “uma política complexa” e não apenas policial. “Ou seja – diz Rojido –, compreendemos que não é justo colocar sobre os ombros da polícia toda a responsabilidade pela segurança pública e que é necessário atuar de forma coordenada a partir de todas as esferas”: os três poderes de Estado, diversos ministérios, administrações municipais, sociedade civil organizada, empresas privadas de segurança, companhias tecnológicas, seguradoras, entre outros setores.E, em terceiro lugar, “fazer da segurança pública uma política fundamentada em evidências”. “Na segurança pública, as decisões vêm sendo adotadas, tradicionalmente, historicamente, no Uruguai e na América Latina, por impulsos imediatistas: principalmente pelo impacto do poder retórico, por demagogia, basicamente”, acrescenta Rojido, para quem “dada a relevância do tema, dada a enorme quantidade de recursos mobilizados, precisamos aplicar adequadamente o dinheiro que temos para produzir os resultados que pretendemos alcançar”. É por essa razão, aponta, que recorrem “a mais e melhor evidência técnica para desenhar a política governamental e, inclusive, para depois nos submetermos à avaliação sob rigoroso controle da oposição política e da sociedade em geral”.O ministro do Interior, Carlos Negro, manifestou-se publicamente, indicando a pretensão de que o formato uruguaio de segurança represente um modelo “democrático, republicano e participativo”, visto que, no extremo oposto, encontrava-se o outro modelo: o modelo (do presidente salvadorenho, Nayib) Bukele, frequentemente visto “como um modelo de segurança pública, e esquecem-se de que se trata de um regime político” distinto.“O conceito estrutural que conduz todo o Plano de Segurança é edificar um modelo uruguaio de segurança pública, um caminho para enfrentar o crime e aprimorar os patamares de segurança do país sem recorrer a fórmulas autoritárias ou que se revelem inviáveis de implementação em uma nação republicana e democrática como a nossa”, reforçou Negro.“A premissa de gerar segurança sacrificando direitos configura uma contradição – pondera Rojido. – Nós concebemos a segurança pública enquanto o próprio exercício de garantias: direito à vida, direito à propriedade, direito à liberdade individual. Se nos deparamos com a necessidade de tolher direitos para obter segurança, há uma falha na premissa”.A criminalidade violenta é o fantasma que avança hoje por toda a América Latina. Luis Moreno Ocampo, ex-procurador do CPI (Tribunal Penal Internacional), avalia que, na América Latina, o problema mais severo já não reside nos conflitos armados formais, mas sim no crime organizado.“Toda a região enfrenta um processo de décadas marcado pela deterioração dos indicadores de segurança pública”, relata Diego Sanjurjo, membro de destaque do Glacsed (Grupo Latino-Americano e do Caribe de Segurança e Democracia), e ex-coordenador de Estratégias de Segurança Integral e preventivas da gestão anterior uruguaia liderada pelo centrodireitista Luis Lacalle Pou. “As redes do mercado ilícito e as organizações criminosas expandem sua atuação há décadas, e os raros países até então tidos como seguros passaram a manifestar graves problemas, a exemplo do Uruguai, do Chile, da Costa Rica e do Equador”, pontua.Diante de semelhante conjuntura, lideranças regionais cogitam reproduzir o chamado “modelo Bukele”. Durante o governo Bukele, El Salvador transitou do posto de uma das nações mais violentas do mundo para o registro de apenas 1,3 homicídio para cada 100.000 pessoas. A retração expressiva dos índices violentos ocorreu paralelamente à decretação de um “estado de exceção”, prisões generalizadas desprovidas de mandado formal, notificações de práticas de tortura (refutadas formalmente pelo Poder Executivo), domínio sobre a Suprema Corte e modificação da Carta Magna para viabilizar a reeleição sem restrições, cenário que configura uma democracia enfraquecida, conforme aponta o levantamento Varieties of Democracy.Contudo, a importação do “modelo Bukele” apresenta entraves práticos severos em outras jurisdições e não assegura eficácia. Diego Sanjurjo, filiado ao Partido Colorado do Uruguai, argumenta que “as ações estatais punitivistas de segurança guardam forte teor dependente”. Detalhando a questão: “Destacam-se mil agentes extras para o policiamento ostensivo, sem que haja queda da delinquência. Apesar disso, descarta-se recuar na medida. Pelo contrário: os cidadãos demandam reforço adicional. Enviam-se então 2.000 e, sem importar a ineficácia, clama-se por 4.000. Lógica idêntica recai sobre a severidade penal, sobre as frotas de viaturas... Raras vezes se pondera: constatada a ineficácia, revoga-se a intervenção”. “Quase a totalidade dos territórios da América Latina se encontra nessa esteira: uma estrutura de segurança paulatinamente mais onerosa, contudo despida de efetividade”, frisa.O Uruguai busca alcançar resultados concretos por meio dessa orientação de cunho científico. Com tal propósito, recebe a cooperação de múltiplos organismos internacionais e instituiu o Conselho Internacional de Observação e Cooperação. A referida rede institucional internacional fornece cooperação técnica, aporte orçamentário, exerceu o papel de “observador idôneo” ao longo da interlocução política articulada entre setores sociais e agremiações partidárias plurais, além de ter registrado “o encadeamento integral das etapas” que culminaram no Plano Nacional de Segurança, “sustentando a perspectiva de que a metodologia uruguaia agregue valor igualmente a outras nações do continente”, pormenoriza Rojido.Integram o rol de entidades parceiras do governo uruguaio: o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), o CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe), o UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o Instituto de Políticas Públicas e Direitos Humanos do Mercosul, o ILANUD (Instituto Latino-Americano da ONU para a Prevenção do Delito e o Tratamento do Delinquente), vinculado à ONU (Organização das Nações Unidas), e a OEA (Organização dos Estados Americanos).O Uruguai participa paralelamente do Glacsed, conduzido pelos ex-mandatários de Costa Rica e Peru, Carlos Alvarado e Francisco Sagasti, iniciativa focada em “fomentar e consolidar os debates voltados ao enfrentamento do crime organizado a partir de posturas enérgicas, preservando estritamente os parâmetros do Estado Democrático de Direito sem retroceder a diretrizes governamentais de cunho autoritário”, salienta Sanjurjo, que atua como porta-voz do coletivo.“Evidentemente não subestimamos as dimensões do obstáculo posto diante de nós”, admite Rojido. Até o momento presente, as instituições uruguaias não conseguiram refrear a taxa de mortes violentas intencionais, associadas majoritariamente ao crime organizado. As demais infrações penais exibem retração consistente: delitos de furto, roubos, episódios de violência doméstica, assassinatos no interior do sistema carcerário, entre outras modalidades.As metas visadas, alertam os especialistas, demandarão tempo de maturação. Por essa razão, a vigência prevista abrange 10 anos, englobando ao menos dois ciclos presidenciais distintos, eventualmente sob governanças partidárias opostas. Sob essa ótica, o Uruguai reúne predicados propícios à sustentação de uma diretriz estatal consolidada em segurança pública, “tendo em vista a interlocução ininterrupta construída pelas agremiações partidárias plurais e uma sociedade civil organizada vigilante”, conclui Rojido. “Afinal, as legendas vêm se alternando nas instâncias de poder e nenhuma foi capaz de produzir respostas definitivas de forma isolada”, conclui, lembrando que a rota oposta é bastante conhecida: o descrédito público nas vias democráticas abrindo espaço para “soluções simplistas, atalhos ilusórios e arroubos retóricos demagógicos, populistas e autoritários”.Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp












