Dia das Crianças: precisamos refletir sobre a ascensão da obesidade infantil

A nutricionista Desire Coelho chama a atenção para a importância de cuidarmos da saúde de crianças e adolescentes. Crédito: Desire Coelho/Estadão

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

Gerando resumo

A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou nesta quarta-feira, 7, as primeiras diretrizes globais para o tratamento da obesidade na infância e na adolescência. São dois guias: um voltado para crianças menores de 10 anos e outro para adolescentes de 10 a 19 anos.

PUBLICIDADE

Segundo a OMS, 170 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos viviam com obesidade em 2024. Nessa faixa etária, a prevalência da doença quadruplicou desde 1990, passando de 2% para 8%.

No Brasil, de acordo com dados do Atlas Mundial da Obesidade 2026, cerca de 6,6 milhões de crianças entre 5 e 9 anos possuem obesidade. Entre o público de 10 a 19 anos, cerca de 9,9 milhões convivem com a doença.
Diante desses números, as diretrizes buscam orientar os países a reorganizar seus serviços de saúde para reduzir as incapacidades associadas à obesidade e melhorar a qualidade de vida dos jovens que convivem com a doença.
Publicidade
Mudança de comportamento
Conforme as recomendações, o tratamento para ambas as faixas etárias deve sempre começar com mudanças no estilo de vida. Elas devem envolver estratégias comportamentais, de reintrodução alimentar e atividade física.
No Brasil, cerca de 6,6 milhões de crianças entre 5 e 9 anos convivem com a doença Foto: Kyrylo Ryzhov/Adobe Stock Images
A OMS destaca que a participação dos pais e outros responsáveis é fundamental e que as intervenções devem ser adaptadas à idade e também ao gênero, contexto cultural e interesses do jovem.
A organização estabelece que esse acompanhamento deve ser mantido por pelo menos seis meses antes de se avaliar qualquer outra alternativa de tratamento.
Uso de medicamentos
A OMS não recomenda o uso de medicamentos análogos de GLP-1, as famosas canetas para obesidade, para crianças menores de 10 anos.
Publicidade
A organização entende que existe uma escassez de evidências sobre os benefícios da medicação para essa faixa etária. Também faltam dados sobre possíveis efeitos adversos e consequências no crescimento, desenvolvimento físico, parâmetros fisiológicos e saúde menta.
“Agora, é importante lembrar que já existem estudos com crianças de 6 a 11 anos com obesidade sendo tratadas com liraglutida (um dos análogos de GLP-1). Recentemente, tivemos, nessa mesma faixa etária, estudo com semaglutida (outro análogo)”, cita a endocrinologista Maria Edna de Melo, coordenadora do Departamento de Advocacy da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).
“Então, já existe certo respaldo para que a gente prescreva com mais segurança. Mas a segurança total e a indicação formal só ocorrem quando a agência regulatória, no nosso caso a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), aprova o tratamento”, adiciona a médica, que também é integrante da Comissão de Relações Institucionais e Políticas Públicas da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).
No caso de adolescentes entre 10 e 19 anos, o uso pode ser considerado quando há complicações de saúde (como diabetes tipo 2) e os pacientes não responderam a mudanças no estilo de vida após seis meses.
Publicidade
Cirurgia bariátrica
PUBLICIDADE
Para o público abaixo dos 10 anos, a OMS não recomenda a cirurgia bariátrica e nem o uso de outros dispositivos para perda de peso. A organização entende que as operações podem trazer prejuízos para o desenvolvimento dos pequenos.
“A cirurgia é mais complexa nas crianças abaixo de 10 anos. Os níveis de evidência são muito baixos e trata-se de um procedimento que é irreversível e passível de complicações”, pontua Maria Edna.
Para os adolescentes, a cirurgia é tratada como uma medida de última linha. Ela pode ser considerada em casos de obesidade grave e quando os outros métodos de tratamento não funcionaram.
Leia também
- Pediatras alertam para riscos do uso inadequado das canetas de GLP-1 entre crianças e adolescentes
- As escolhas digitais que moldam a saúde de nossas crianças
- Dia das Crianças: o presente mais valioso é protegê-las da obesidade em ascensão
Saúde mental
Embora não seja o foco dos documentos, a saúde mental aparece como uma preocupação e deve ser abordada juntamente com a obesidade.
Publicidade
“Ansiedade, depressão, baixa autoestima e desregulação emocional podem contribuir para comportamentos alimentares não saudáveis, inatividade física e isolamento social, e crianças e adolescentes com obesidade podem sofrer estigma e bullying que prejudicam seu bem-estar emocional”, diz a OMS.
A organização orienta os profissionais de saúde a abordar tanto a obesidade quanto os problemas de saúde mental precocemente e em conjunto, utilizando estratégias que envolvam a família e sejam adequadas ao desenvolvimento.
Políticas públicas
A OMS enfatiza que o combate à obesidade não se restringe a escolhas individuais. Por isso, incentiva os países a criarem políticas públicas.
“A base do tratamento da obesidade em crianças e adolescentes não está em medicamentos ou cirurgias, mas sim no acesso a um suporte abrangente que possibilite uma alimentação saudável, atividade física e mudanças comportamentais sustentáveis”, afirma Luz María De Regil, diretora do Departamento de Nutrição e Segurança Alimentar da OMS, em comunicado.
Publicidade
“Nossa prioridade deve ser garantir que todas as crianças e adolescentes tenham acesso a cuidados de qualidade e ambientes acolhedores desde a infância, ajudando-os a alcançar e manter um peso saudável e lançando as bases para uma vida inteira de saúde e bem-estar”, acrescenta Luz María.
A organização indica uma abordagem multissetorial, que envolva áreas do governo além da saúde. As diretrizes também orientam o fortalecimento da atenção primária e da cobertura universal, a criação de espaços ativos (como ciclovias e praças para recreação) e a promoção da educação em saúde (como a alfabetização nutricional).


