Reinaldo Azevedo

Ao não ir a debate com a FUEDEC, petista evita armadilha. Emissora deveria chamar Renan e garantir real debate na direita. Flávio fugiria?

Reinaldo Azevedo

01/10/2026 12:00

Maquiavel diz a Lula por que não ir à Globo: não se joga xadrez com pombos
O presidente Lula decidiu não comparecer ao debate promovido pela Globo nesta quinta. Era a única coisa sensata a fazer. Já “anteouço” (se me permitem…) o alarido do “coro dos contrários” e da indignação seletiva, com sua fúria cívica, a rasgar as vestes: “Que afronta à democracia!”. Eis os paladinos da moralidade de quermesse em que costumam se ancorar, em debates, os “padres de quermesse”, com a licença da senadora Soraya Thronicke (PSB-MS). É? De que democracia estamos falando? Daquela que se ancora no debate de ideias ou na do espetáculo mambembe que se pretendia promover com o embate entre Lula e a FUEDEC, a Frente Única da Extrema Direita Enlouquecida e Cafona?
Evidentemente, a decisão de Lula não está livre de desgastes. Os especialistas no alarmismo de chanchada já sacaram suas calculadoras de rejeição eleitoral para medir o tamanho do estrago. Haverá algum custo, claro! Mas é evidente que o presidente opta pelo mal menor. Não se confundam nem ingenuidade nem burrice com virtude. Escolher o mal menor para si mesmo e para os outros, sendo o bem inalcançável, é uma imposição ética de primeira grandeza.
Vão lá buscar em Max Weber a diferença entre a necessária “ética da convicção” — que não pode ser um fetiche que prefere um mundo em chamas a fazer alguma concessão — e a “ética da responsabilidade”, que mede as consequências reais de decisões de alcance público.
Lula deve fidelidade à estabilidade das instituições. Permitir que a própria Presidência da República seja arrastada para o lamaçal, legitimando o insulto como método de debate, não seria exatamente um gesto democrático, mas uma piscadela para o vale-tudo. Nesse caso, o imperativo moral e ético é preservar o próprio processo eleitoral do vandalismo retórico. Seria uma “ideia de Genserico” (não resisti à tentação do trocadilho…)
A FUEDEC não quer debater o Orçamento. A FUEDEC não quer debater taxa de juros. A FUEDEC não quer debater diplomacia presidencial. Ela quer o sangue das manchetes; os cortes de trinta segundos para as redes sociais; a lacração rasteira que empanturra o gado digital. Ir a esse encontro não seria um ato de coragem, mas uma concessão ao grotesco.
A sabedoria popular cunhou aquela máxima primorosa: jogar xadrez contra um pombo é inútil e contraproducente. O bicho derruba as peças, defeca no tabuleiro e sai voando de peito estufado, cantando vitória para os seus semelhantes.
Façamos as contas. Se enfrentar um único pombo enxadrista já é um inútil teste de paciência, imaginem fazê-lo contra quatro… Em vez de perder tempo, servindo de rival a espadachins da reputação alheia, melhor faz Lula se optar pela leitura do poema “As Pombas”, do parnasiano Raimundo Correia:
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“Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
(…)
E à tarde, quando a rígida nortada
(…)
Voltam todas em bando e em revoada…”
ÉTICA DO SACRIFÍCIO? UMA OVA!
Ir ao debate seria aceitar o sacrifício em nome de… do quê? O sacrifício desnecessário seria um erro “crasso” — procurem a origem da palavra. Vamos a Maquiavel, em “O Príncipe”, na tradução de Lívio Xavier. No Capítulo XV (“Das coisas pelas quais os homens, e especialmente os príncipes, são louvados ou vituperados”), considera:
“Porque um homem que queira fazer profissão de bondade por toda parte e sempre arruína-se entre tantos que não são bons. Daí ser necessário a um príncipe, para manter-se, aprender a poder não ser bom e a valer-se ou não disto segundo a necessidade”.
Um príncipe que escolhe imolar-se no altar dos seus inimigos é, de fato, só um idiota. Ir à arena da FUEDEC seria assinar o próprio martírio para deleite dos carrascos.
Se a Rede Globo quer mesmo promover um debate instigante, vivo, que rompa a monotonia dessa frente única, deveria convidar aquele que, de fato, no terreno que chamam “conservador”, tem divergências com Flávio Bolsonaro.
As regras permitem que se convide Renan Santos, do Missão. Mas, suponho, se acontecer, há o risco de Flávio fugir pela porta dos fundos. Está preparado para um “quatro contra um”, tendo Lula como alvo, mas não para um mano a mano com quem ousa desafiá-lo naquele que seria seu próprio território. E, desta vez, sem Jandira Feghali para os primeiros socorros. O dito Zero Um aceita, por exemplo, debater com Renan o desembarque da Rockbridge Network no Brasil?
O PODCAST
No exato horário do debate, o presidente estará no Flow Podcast, concedendo uma entrevista exclusiva a Igor 3K. Não sabendo previamente quais são as perguntas, como sempre acontece por lá, o petista submete-se ao imponderável da conversa franca. Mas sem a conspiração dos pombos enxadristas da FUEDEC.
Em vez do espalhafato no tabuleiro, uma conversa que pode fluir, se me permitem o trocadilho interlinguístico. E os outros que se divirtam por lá, na revoada dos pombos.
Não sei se, ao não ir, Lula ganha ou perde do ponto de vista eleitoral. Não faço adivinhações. Prefiro que outros passem vergonha em meu lugar com suas previsões furadas. O que sei, por dever de ofício e de lógica, é que todas as pessoas, mormente as que exercem cargo público, têm a obrigação de cercar as margens de erro até onde puderem.
“A imprudência é a ousadia dos tolos”. De quem é a frase? Essa é minha mesmo.
Permito-me voltar ao florentino de nariz aquilino no Capítulo XVIII de “O Príncipe” — “De que modo os príncipes devem manter a fé da palavra dada” —, também na tradução de Xavier:
“Os homens, em geral, julgam mais pelos olhos do que pelas mãos, porque a todos cabe ver, mas poucos podem tocar. Cada qual vê o que tu pareces, poucos sentem o que tu és (…) e nas ações de todos os homens, máxime dos príncipes, onde não há tribunal para apelar, atende-se ao resultado.”
Quem compõe o tribunal que condena Lula por se negar a desempenhar o papel de vítima da frente única? Afastar-se da pantomima é o verdadeiro ato de preservação do bem comum. Mais um pouco do Capítulo XVIII:
“Sendo, portanto, um príncipe obrigado a bem servir-se da natureza do animal, deve escolher a raposa e o leão; pois o leão não se defende das armadilhas e a raposa não se defende dos lobos. É necessário, pois, ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para amedrontar os lobos.”
O presidente preferiu o inesperado do Flow ao pelotão de fuzilamento da FUEDEC — ainda que dentro de uma moldura de suposto rigor técnico. Essa era a coreografia que tinha sido ensaiada e que ora se desconcerta e se desconserta.
CONCLUO
E quem vai vencer a eleição? Não sei. Sei é que ninguém tem a obrigação de atuar em favor da própria derrota. Maquiavel de novo? Pois não? Agora no Capítulo XXI:
“A prudência consiste em saber conhecer a natureza dos inconvenientes e adotar o menos mau por bom.”
Muita gente chocada? Na próxima, trato da fábula do Lobo Mau e do cordeiro que foi comido porque acreditou que a força do argumento se sobreporia ao argumento da força. Lula não vai. “O Príncipe” quis assim. Mas poderia ter sido “O Pequeno Príncipe”.
“Chega de Maquiavel, Reinaldo! E o que diz o Unhudo na Anticaverna de Platão, lá nas profundezas de Dois Córregos?” Ah, vocês conhecem: “Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas”. Nicolau não conheceu a frase, mas certamente diria: “Isso resume a minha obra mais famosa”.


